segunda-feira, 21 de junho de 2010

FARMÁCIA HOSPITALAR - SISTEMAS DE DISTRIBUIÇÃO DE MEDICAMENTOS

FARMÁCIA HOSPITALAR - SISTEMAS DE DISTRIBUIÇÃO DE MEDICAMENTOS



Quando se vai implantar um sistema de distribuição de medicamentos é necessário que se considere alguns fatores que tornarão essa escolha a mais indicada:

 A estrutura física do hospital, a localização da farmácia e sua relação com as diversas clínicas;
 O tamanho do hospital em função do número de leitos disponíveis;
 A disponibilidade de recursos humanos na farmácia;
 Os sistemas especiais de controle de algumas substâncias como os medicamentos psicotrópicos e entorpecentes, antibióticos, etc...
 As características dos diferentes serviços existentes na unidade que incluem:

As clínicas que mantém leitos para internação como clínica médica, pediatria, clínica cirúrgica, etc..., onde se podem implantar sistemas de distribuição de medicamentos por dose unitária para um período de 24 horas;

Os serviços que requerem sistemas de distribuição coletiva ou farmácias satélites como emergência, centro cirúrgico, unidade de terapia intensiva, etc...

Existem alguns modelos de sistemas de distribuição de medicamentos nas unidades hospitalares destacando-se os 4 principais citados pela OPAS,MS (1997,1994):

A - Sistema de Distribuição Coletivo:

Distribuição baseada em reposição de quantidades fixas, em nível de cada unidade de atenção médica.

Vantagens:

 Menor número de prescrições;
 Menor número de recursos humanos na farmácia;
 Rápida disponibilidade de medicamentos na unidade assistencial.

Desvantagens:

 Maior quantidade de estoque imobilizado;
 Maior perda por deterioração, roubo, etc...;
 Maior probabilidade de erros na medicação;
 Requer tempo de trabalho da enfermagem;
 Aumento dos gastos;
 Difícil integração do farmacêutico à equipe de saúde;
 Ausência de opções para intervir, de forma oportuna, em favor da racionalização da terapia.

B - Sistema de Distribuição por Prescrição Individualizada:

É o sistema de distribuição baseado na prescrição médico do paciente.

Vantagens:

 A prescrição médica pode ser revisada pelo farmacêutico;
 Maior controle sobre o material estocado;
 Permite calcular para cada paciente o gasto com medicamentos durante a internação.
 Redução potencial de erros de medicação;
 Aumento da integração do farmacêutico à equipe de saúde.

Desvantagens:

 Aumento da necessidade de recursos humanos e infra-estrutura da Farmácia Hospitalar;
 Todos os inconvenientes da transcrição das prescrições médicas;
 Requer excesso de tempo de trabalho da enfermagem;
 Faltam de controle sobre a deterioração, perdas, desvios, etc...;
 Não há devolução de medicamento não utilizado.

C) Sistema de Distribuição Combinado:

É um sistema em que se estabelece a distribuição de algumas drogas mediante a prescrição individual se mantendo em cada serviço, um estoque de medicamentos geralmente de uso comum.

Vantagens:

 Redução do nível de estoque;
 Maior controle farmacoterapêutico mediante a participação do farmacêutico.

Desvantagens:

 Requer excesso de tempo de trabalho da enfermagem;
 Continuam as probabilidades de erros de medicação;
 Dificulta cobrar o medicamento consumido pelo paciente durante a internação;
 Escasso controle sobre o material estocado.

D -Sistema de Distribuição por Dose Unitária:

Consiste em dispensar os medicamentos em doses individualizadas, de acordo com a prescrição médica para cada paciente, em frascos de administração única.

Vantagens:

 Redução grande de erros de medicação;
 Controle mais efetivo sobre os medicamentos estocados;
 Redução do tempo de trabalho da enfermagem;
 Integração do farmacêutico à equipe de saúde;
 Aumento da segurança do médico;
 Otimização da qualidade assistencial;
 Oferta de medicamentos em doses organizadas e higiênicas.

Desvantagens:

 Requer maior investimento inicial;
 Requer aumento das necessidades de recursos humanos e infra-estrutura na farmácia hospitalar;
 Compra de materiais e equipamentos especializados;
 Incremento das atividades desenvolvidas pela farmácia.

O Sistema de Distribuição por Dose Unitária (SDMDU), trata-se de uma ferramenta indispensável para que o farmacêutico hospitalar possa desenvolver uma Assistência Farmacêutica com segurança e qualidade, e por tanto merece destaque.

De acordo com Cipriano, Maluvayshi, Laragnoit & Alves (2001) nos anos 60, muitos farmacêuticos hospitalares formaram grupos para conduzir uma pesquisa para encontrar um método mais seguro, mais efetivo de distribuição de medicamentos.

A primeira tentativa de descrever o SDMDU foi documentado há aproximadamente 40 anos em alguns hospitais comunitários de Long Besch, California, Rochester e Minnesota.

Farmácias Hospitalares das Universidades da Flórida, Arkansas, Iowa, Wiiscosin, Kentucky e Ohio, mais tarde desenvolveram o conceito de dose unitária e implementaram este sistema por completo em seus hospitais (Buchanan, 1981).

Assim , Baker e Macconell, 1962 e Baker e Heller, 1964, comparando erros de medicação entre os sistemas de distribuições tradicionais e o sistema de distribuição por dose unitária, encontraram uma incidência que oscilava entre 5,3% e 14,0% para os primeiros em contraste com o índice de erro da ordem de 0,6% para o último. Hoje em dia, não há mais duvida, que o sistema mais adequado para a realização da distribuição de medicamentos é a dispensação por dose unitária

Características

• Os medicamentos são acondicionados em embalagem individuais;
• Os produtos farmacêuticos são dispensados pronto para o uso, tanto quanto for possível;
• A disponibilidade, a qualquer momento, das doses dos medicamentos, com formas dosagens prontas para serem ministradas a um determinado paciente, de acordo com a prescrição médica, num certo período de tempo;

Desta forma, poderíamos conceituar SDMDU como uma quantidade ordenada de medicamentos, com formas e dosagens prontas para serem ministradas a um determinado paciente, de acordo com a prescrição médica, num certo período de tempo.

Objetivos

• Garantir a adequada terapia famacológica.
• Cumprir a prescrição médica evitando erros.
• Prover o acompanhamento farmacoterapêutico
• Diminuir erros de medicação.
• Racionalizar o processo de distribuição dos medicamentos, reduzindo custos.
• Proporcionar melhor segurança, rastreabilidade e identificação dos medicamentos.
• Reduzir estoques periféricos, com melhor controle logístico dos produtos farmacêuticos.
• Favorecer a correta ministração dos medicamentos.
• Dar suporte para a implantação da farmácia clínica.
• Aumentar a qualidade assistencial do paciente.

D - Sistema de Distribuição de Correlatos:

O sistema de distribuição de correlatos pode estar incluído nas atividades do setor de dispensação segundo a realidade de cada instituição. A distribuição pode ser realizada, conforme o sistema de distribuição de medicamentos adotado pelo hospital (MS,1994).

E - Sistema de Distribuição de Germicidas:

A distribuição de germicidas deve estar sujeito ao que as CCIH de cada unidade determinam. A manipulação das soluções tem que ser feita de modo a garantir as concentrações corretas respeitando os protocolos das referidas comissões de controle de infecção.

ETAPAS DO PROCESSO DE DISTRIBUIÇÃO E DISPENSAÇÃO DE MEDICAMENTOS

1) Receber e verificar a validade da receita.

Ao receber a receita, solicitação ou prescrição, o dispensador deve verificar se ela contém as exigências legais como: nome do paciente, nome do medicamento (nome genérico sempre que possível), dose, posologia, duração do tratamento, data, assinatura do prescritor, carimbo com CRM ou CRO.

Verificar se o receituário é compatível com o tipo de medicamento prescrito. (Medicamentos controlados pela portaria 344/98, que exigem receituários específicos e preenchimento correto).

Observar a data da prescrição: medicamentos como antibióticos e analgésicos tem a receita válida por 7 dias - alguns previstos em portaria 15 dias – e os demais medicamentos por 30 dias.

2) Compreender e interpretar a receita ou prescrições:

 Ler a receita, solicitação ou prescrição, e só dispensar os medicamentos se não houver duvidas sobre o que está sendo prescrito.
 Interpretar corretamente qualquer abreviação usada por quem prescrever.
 Observar se a dose prescrita é adequada ao paciente (observar sexo e idade).
 Executar corretamente qualquer cálculo da dose e efetuar a entrega de quantidade suficiente para o tratamento completo. Conferir o cálculo sempre que possível.
 Identificar qualquer interação comum entre as drogas prescritas .
 Alertar o paciente para possíveis interações da droga prescrita com alimentos e álcool.

3) Identificação do medicamento:

Se a receita estiver correta , o dispensador vai até a prateleira, identifica o medicamento, a concentração , a forma farmacêutica, os aspectos físicos e a embalagem do mesmo. Só após confirmar que todos estes itens estão corretos, ele retira o medicamento da prateleira e parte para o registro da ação.

4) Registrar a ação executiva:

Registrar as dispensações é essencial para controle do estoque existente, do gasto usual do medicamento para fins estatísticos e previsões de consumo. Este controle também é útil caso venha a ocorrer algum problema entre medicamento/paciente.

Todas as receitas, solicitações ou cópias de prescrições provenientes do atendimento devem ser em duas vias, neste caso o dispensador retém e arquiva a 2º via, devolvendo a 1º via à enfermagem. Em seguida deve dar baixa da quantidade dispensada do medicamento.

Quando a receita ou prescrição, ou formulário padronizado pelo hospital estiver em apenas uma (1) via, e caso está primeira via fique com a enfermagem deve-se anotar em livro de registro próprio, antes dos itens serem entregues ao a enfermagem/paciente. Este livro deve conter: data, nome do paciente, nome e apresentação do medicamento, quantidade expedida, nº de registro do profissional prescritor (CRM,CRO, CRMV) e nome do dispensador. Devolver a receita para o paciente.

Quando computadores são usados no processo de dispensação, o programa deve reter todas as informações relativas ao medicamento e ao paciente. Os dados que devem ser registrados são os mesmos referidos anteriormente.

Este programa deve se prestar também ao aspecto administrativo da farmácia, registrando entradas, saídas, fornecedores, lote, validade, mapas diários dos medicamentos disponíveis etc.

5) Expedir os medicamentos aos pacientes com instruções e orientações claras.

Após certificar-se de que todas as especificações estão corretas, o dispensador coloca o medicamento num saquinho e o entrega para enfermagem/ paciente pessoalmente ou a seu representante, com instruções claras, abordando os seguintes aspectos:

 Nome do medicamento - o paciente deve identificar claramente qual ou quais medicamentos está tomando, a fim de saber posteriormente para que servem e que cuidados devem ser tomados com cada um, para tanto o funcionário que esta dispensado como a enfermagem deve ter o maior cuidado no decorrer do processo de dispensação.

 Finalidade terapêutica - quando se dispõe de farmacêutico para dispensação, ele deve esclarecer para que servem os medicamentos prescritos e desta forma criar no paciente a necessidade de aderir ao tratamento.

 Esquema posológico – repassar ao paciente os horários de ingestão dos medicamentos, em especial quando houver mais de um, devendo os mesmos ser bem identificados para evitar trocas. (Enfermagem)

 Modo de usar – deve ser repassada a forma como os medicamentos serão tomados (por exemplo: com água, com leite, antes, durante ou após as refeições), a quantidade a ser ingerida, o tempo de duração do tratamento, a via de administração (para evitar o uso incorreto dos mesmos, como por exemplo: que produtos de uso externo sejam ingeridos, supositórios, comprimidos efervescentes sejam engolidos, drágeas e cápsulas de uso entérico sejam abertas).

 Precauções: os cuidados que devem ser tomados no uso dos medicamentos em relação ao ambiente: exposição ao sol, a patologia, a forma de absorção, os efeitos colaterais, e precauções com determinados medicamentos (não dirigir, não beber bebidas alcoólicas, alergias, gestação).

6) Alertas sobre possíveis efeitos colaterais devem ser prestados com cuidado sempre que possível para enfermagem, médico e paciente.

 Efeitos colaterais leves como náuseas, diarréia leve, urina e fezes com coloração diferente, devem ser mencionados para evitar que um paciente interrompa o tratamento.

 Efeitos colaterais mais sérios devem ser mencionados apenas com a concordância de quem prescreveu, que é quem deve considerar estes riscos.
 Interações com alimentos e medicamentos – para evitar efeitos indesejados e inesperados.
 Deve ser praxe recomendar ao paciente a guarda adequada do medicamento, ressaltando o risco de intoxicações em crianças. Alguns medicamentos devem ficar acondicionados em geladeira após a sua abertura ou reconstituição. Orientar que deve ser evitada a guarda de restos de medicamentos, em especial os líquidos, porque os mesmos se deterioram rapidamente depois de abertos.
 Fornecer explicações de como solubilizar medicamentos em pó, lembrando sempre que isto deve ser feita com água filtrada ou fervida.
 Todo esforço deve ser feito para assegurar que a enfermagem/médico e paciente tenha compreendido as instruções.
 Todo paciente deve ser tratado com respeito.
 A necessidade de manter a privacidade e o segredo quando da explicação do uso de alguns tipos de medicamentos deve ser reconhecida e esforços devem ser feitos para estruturar o local de entrega de forma que as orientações possam ser dadas de maneira mais individual possível.

O sucesso do tratamento reside na eficiência da comunicação do dispensador, enfermagem e médico com o paciente. Estudos do CRF do Paraná apontam que de 30 a 50% dos pacientes em tratamento ambulatorial não seguem corretamente a terapêutica, isto por fatores relacionados ao próprio doente, ao médico, ao farmacêutico, pela desobediência ou pela má compreensão das recomendações pelo paciente ou da necessidade real de seguir o tratamento prescrito.

Em nosso país há um grande número de semi-analfabetos e analfabetos. Também não é prática comum a leitura de bulas. Boas partes dos médicos não repassam as informações necessárias e os medicamentos fornecidos pela rede pública não possuem bula. Tudo isso reforça a necessidade de uma boa orientação ao paciente.

7)- Pessoal de Dispensação:

A dispensação não é um processo simples. Ela exige das pessoas envolvidas habilidades e atitudes específicas como:

Conhecimento sobre os medicamentos fornecidos (uso comum, dose recomendada, vias de administração, efeitos colaterais, interações, cuidados na armazenagem e habilidade em cálculo e aritmética. Apresentar-se com asseio , ser honesto e organizado. Habilidade na comunicação com os médicos, corpo de enfermagem e pacientes).

Para alcançar estes objetivos com êxito é necessário que os dispensadores sejam periodicamente treinados e estejam constantemente sob orientação e supervisão de um profissional farmacêutico.

Como na maioria das farmácias das unidades de saúde os dispensadores não têm formação específica na área de medicamentos, é dever do farmacêutico capacitá-los, educando-os quanto ao uso racional dos medicamentos e quanto às questões higiênico-sanitárias e legais.

As tarefas delegadas ao pessoal de apoio devem ser avaliadas, devendo o farmacêutico intervir sempre que necessário. Para tanto se deve elaborar um cronograma de treinamento dos auxiliares que tenha uma certa periodicidade para a manutenção do nível de atendimento.



Referências

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  • Harrisson, B.R. Developing guidelines for working. American journal Hospital Pharmacy v. 38 p 1686-1693, nov. 1981
  •  Hepler, C.D. & Strand, L.M. (1990). Opportunities and responsabilities in pharmaceutical care. A m j Hosp. Pharm 47: 533-543.
  • Ministério da Saúde. Coordenação de Controle de Infecção Hospitalar, 1994. Guia Básico para Farmácia Hospitalar. Brasília: Edição pela Divisão de Editoração Técnico - Científica / Coordenação de Documentação e Informação/Secretaria de Administração Geral/ CDI/SAG/MS.
  •  Maia Neto, J. F., 1990. Farmácia Hospitalar. Um enfoque Sistêmico. Brasília: Thesaurus Editora.
  •  Maia Neto J.L, 2005  Farmácia Hospitalar e suas Interfaces com a Saúde , São Paulo, Rx editora
  •  Nogueira, H., 1961. Serviço de Farmácia nos Hospitais. Rio de Janeiro, RJ: Artigo publicado na Revista Brasileira de Farmácia n°3/4, março/abril de 1961.
  •  Roark, M., 1993. Slowing rate of cost increase in the Pharmacy, Hospitals 67(2): 56.
  •  Ryan, B. A, 1993. The rising cost of Fharmaceuticals: An Industry observer’s perspective. Am. J. Hosp. Farm. 50, suppl 4: 53 - 54.
  •  SBRAFH, 1996/1997. Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar, 1996/1997. Padrões Mínimos para Unidades de Farmácia Hospitalar. Belo Horizonte, 1997
  •  Sociedad Española de Farmacia Hospitalaria, 1990. Criterios y Estandares de Practica para Servicios de Farmacia Hospitalaria. Madrid, España: Edita y Distribuye: Consejo General de Colegios Oficiales de Farmacéuticos.
  •  Wilken, P.R.C. & Bermudez, J.A.Z (1999). A Farmácia no Hospital. Como avaliar ?. Rio de Janeiro: Editora Ágora da Ilha.







Um comentário:

  1. Parabéns pelo blog.Também sou farmacêutico.Visite-me em www.gestaodelogisticahospitalar.blogspot.com. Abraços.

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